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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

LIVRO: "O Filho de Mil Homens" | Valter Hugo Mãe



LIVRO: “O Filho de Mil Homens”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Setembro de 2011 (14.ª edição, Abril de 2018)


“Ele sentia como se procurasse uma criança que lhe pertencesse, e como se a tivesse perdido algures num passeio por distracção e faltasse apenas reencontrá-la. Era como se essa criança o pudesse quase prever, ansioso na busca, ansiosos no amor. Sentia-se mal com a demora, porque o seu filho poderia estar com fome, poderia estar com medo ou cansado, a precisar de ajuda para o rio ou para o escuro da noite. O Crisóstomo pensava que o seu filho também só poderia ser inteiro quando estivessem juntos os dois. Perguntava-se que pai seria, assim a perder-se de uma criança tanto tempo. Que pai seria se chegasse tarde de mais. Cada segundo a menos no tempo de um filho era para um pai uma trágica perda, e nada haveria de o compensar.”

Romance de Valter Hugo Mãe publicado em 2011, “O Filho de Mil Homens” nasce de uma falta. Crisóstomo, pescador de quarenta anos, vive como quem perdeu metade de si e procura intuir, no rumor do mar, a explicação para um vazio que o perpassa como vento através de uma casa sem portas nem janelas. O homem sabe que é da queda que nasce a busca e a aparição de Camilo, menino órfão do avô, responderá às suas preces. Luminosa e ferida, a escrita do autor acompanha Crisóstomo, esse homem que decidiu afrontar o ridículo e declarar ao mundo que buscava um filho, não para o salvar, mas para se completar através do gesto de proteger, transmitir, perpetuar. À medida que o romance avança, porém, a tessitura poética transforma o que poderia ser miséria num campo fértil onde germina a esperança mais improvável. Metáfora da solidão contemporânea, a história mais não é do que a constatação de que a vida, acumulada sem partilha, é apenas peso. Crisóstomo passa de personagem a fábula, de homem partido a início de comunidade, caminhando entre o sonho e a realidade como figura bíblica que carrega sobre os ombros a urgência de inventar um destino novo.

Regressemos à história de Camilo e Crisóstomo, ao filho tão desejado e ao pai enfim inteiro. Os dois reconhecem-se como se o acaso tivesse resolvido um teorema antigo. A partir daqui, o romance torna-se num laboratório de afectos: a família deixa de ser fatalidade biológica para se tornar construção artesanal, dilatada por camadas sucessivas de escolha e risco. A mulher que amará ambos não tardará em chegar, uma mulher cansada do amor possível, mas disponível para o amor verdadeiro, esse que aceita a fatalidade da dor como parte do ofício quotidiano. Valter Hugo Mãe abandona aqui qualquer tentação de doçura ingénua. Mesmo se terna, a sua escrita nunca cede ao fácil: o amor exige trabalho e persistência, remodelação constante, a coragem de enfrentar o que fere. O autor dá-nos personagens marcadas por cicatrizes que não pedem piedade, mas tempo para respirar. São seres que transportam fragilidades e grandezas em igual medida, e é essa densidade humana, tão concreta e tão lírica, que impede o romance de deslizar para a fábula moralista. Em vez disso, compõe uma cartografia da coragem íntima, onde cada gesto de cuidado expande a família como círculos sobre a água.

No seu todo, “O Filho de Mil Homens” funciona como uma celebração indócil da possibilidade de reconfigurar o mundo pela ternura. Há no livro algo de epopeia doméstica, de fábula luminosa erguida sobre ruínas. Um texto assombroso, capaz de unir o orgânico ao fantástico, o quotidiano ao onírico. Precisa, rendilhada, visceral, a linguagem conduz o leitor com a delicadeza de quem segura uma vida frágil na palma da mão. Estamos aqui perante um romance que aborda a filiação não como destino, mas como acto de liberdade. A paternidade não como herança, mas como ofício. O amor não como epifania, mas como decisão. O milagre literário de Valter Hugo Mãe está na forma como transforma essas ideias em matéria palpável, quase pictórica, como se cada personagem emergisse de um quadro de Schiele, as suas linhas cruas, directas e honestas como evidência da sua enorme fragilidade, desejo, angústia, humanidade. É por isso que o livro se lê de um fôlego: não pela leveza, mas pela força que dele irradia. Ao terminar, percebe-se que este é menos um romance sobre um homem que deseja um filho e mais um tratado sobre a construção do humano, esse trabalho lento, imperfeito e infinito onde, apesar da sombra, a esperança aprende sempre a voltar.

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